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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Este diário, eu espero que ninguém veja tão cedo. Vou publicá-lo, alguma hora. Em última instância, espero sim que alguém veja, mas ver, neste diário, significa ver-se em contato com a esfera do indizível. Seria esperto de minha parte se eu não escrevesse este diário, mas vou escrevê-lo mesmo assim. Diferente do outro, passarei aqui a tentar expor minha intimidade, meus sentimentos do momento, momento instantâneo e mais duradouro. Quero falar aqui da experiência por que passo, mas abordar seu aspecto mais indizível. É uma tentativa de entrar em contato comigo mesmo, com o que sinto, para resolver as coisas a meu contento, em uma espécie de exercício individual de liberdade. Não pretendo seguir nenhum parâmetro, talvez apenas executar uma auto-análise sempre que necessário, procurando manter a frequÊncia mínima semanal. Vamos a ele.

Encontro-me, no momento, com muito ódio e muita vontade. Ódio por muitas coisas, mas, atualmente, sinto ódio da minha situação institucional. Talvez seja necessário recobrar alguns eventos. Talvez fosse necessário que eu silenciasse, não sei o que seria mais esperto. Estou aqui, de todo modo, em segredo. Vamos aos fatos. Comecei a pensar em um programa filosófico desde que saí da Editora Revan. Lá, tive contato com a obra de Domenico Losurdo, o que me fez, a base de humilhação e debate destemido, aproximar-me do marxismo. Juntando com a minha experiência no Cpdoc, procurei responder ao principal tema discutido nas ciências sociais, que é a junção da microanálise com a macroanálise. Para isso, recuperei meu aprendizado da época do intercâmbio, sobre o mundo do socialismo tardio, e procurei aplicar a esse problema, apoiado em uma espécie de união de Bourdieu com Marx, apoiado em uma visão de longuíssima duração, que encontrei, em sua função exacerbada, nas análises cosmistas, sobretudo na obra de Nikolai Fedorov. Enquanto quis fazer isso, busquei um curso no Museu Nacional, de geologia do Quartenário, onde havia paleontólogos que tratavam do início da humanidade, em correlação com a história natural. 

A negação de ambos os postulados, do marxismo e de Bourdieu, dava-se em lógica complementar: analisar a relação das disputas econômicas simbólicas com a chamada infraestrutura produtiva, procurando a duração cosmoplantária, uma espécie de fio condutor da história que, hoje, retroativamente, encontro no conceito de alienação. A ideia era complexificar a análise marxista e bourdieusiana, à luz do olhar da escola dos Annales, da história total. Cheguei a uma conclusão losurdiana para o meu problema, uma vez que entendi que, mesmo que compreendesse que havia certa prevalência das disputas simbólicas na relação causal entre infraestrutura e superestrutura, era uma trasnformação infraestrutural que daria a oportunidade para uma expansão da liberdade humana, liberando os indivíduos para pleitearem seus desejos individualmente, a partir de um novo pacto social. Seria uma noção progressista, no sentido antropológico do termo, e já vi que enfrentaria muitas batalhas.

De todo modo, em algumas trocas de e-mails com o principal representante do cosmismo, que também era o crítico responsável pela divulgação dos artistas não oficiais de Moscou, vi-me estimulado a continuar com o meu pensamento. Eu via na arte não oficial uma espécie de expressão genuína da arte soviética, uma vez que a sociedade foi transformada. Era a produção simbólica, que enunciava os novos tempos do mundo, se a estrutura produtiva fosse radicalmente transformada. Eles eram o produto de uma megaempreitada de engenharia social, que iria provar o meu ponto sobre a tendência da liberdade e da justiça, se levadas a cabo como atitude política inegociável. Bourdieu oferecia uma complexificação das relações econômicas, um detalhamento, assim eu entendia, do conceito de infraestrutura, que eu combinava com certo biologismo longo-duracional e com o cosmismo. Eu tinha um sistema completo, queria ajuda apenas para continuar. Queria ir para Nova York, estudar com o Groys, o referido representante do cosmismo, mas, por meio de uma troca de e-mails, entendi que precisaria fazer um mestrado. À epoca, eu começava a estudar para a diplomacia, na esperança de conseguir dinheiro e liberdade para realizar o meu projeto filosófico em paz. Mas nada aconteceu como eu queria.

Em paralelo, eu começava alguns experimentos em arte, movido por uma reflexão radical sobre um método para a realização do cosmismo, entendendo o cosmismo como fundamento político principal da motivação humana, porque seu programa político expandia noções insuficientes do marxismo revolucionário. O cosmismo, por sua defesa da imortalidade, por seu apreço pelo desejo, resolveria todos os anseios humanos, sendo necessário, para isso, que um expressionismo radical das injustiças e uma denúncia livre pudessem ser postos em evidência privilegiada, espaço reservado à arte. Meu radicalismo irônico, na crítica cultural, resultava desse meu pensamento a respeito do que era necessário para levar a cabo esse programa político cósmico. E esse radicalismo só tinha espaço na canalização da raiva para um fim político, mas que partisse de uma reflexão prévia e desimpedida de investigação econômica da raiz desse sentimento.

Mas ao ingressar no programa de pós-graduação da puc fui sendo constantemente criticado, sob uma aura de libertação. Libertavam-me de algum mal horrível a mim causado por um "stalinismo cultural", e em troca me davam, com atraso, o emblema da puc na rabiola do meu nome e uns míseros 2.100 reais, que depois se tornaram 3.500, sempre com vários atrasos e questões institucionais várias. Em troca, deveria submeter-me, novamente, ao escrutínio de pares que  nem sabia quem eram e que nem admirava a priori. Devia entender que estava errado, ou devia submeter a minha teoria (que eu entendia como muito melhor do que tudo o que estava sendo debatido no momento, sobretudo porque refutava Viveiros de Castro em sua matriz ontológica). Mas, fui sendo seduzido pelos professores do departamento e por outros fui sendo pressionado, a ponto de que, agora me encontro entre um desejo profundo de crer que a sedução representa um apoio de fato a algo que no futuro (embora ainda tentem me convencer de que there is no future).

O que aconteceu foi que o Groys aposentou-se por causa de uma doença grave, eu não consegui ir para os EUA, e estou tendo que negociar com os membros do departamento algo além da minha permanência semi-escrava no quadro de alunos que colaboram para o crescimento do departamento. O que aconteceu, também, foi que eles tiveram acesso ao meu trabalho de arte, e ficaram embasbacados. O teor radical, contudo, da sua crítica cultural, os levou a não saberem o que fazer com o conteúdo que eu lhes oferecia, que, além de disruptivo, era ainda super bem elaborado. Assolou-lhes o medo, que também me assolava, e sinto-me agora enrolado. Convencem-me a tornar a minha arte mais palatável para o grande público, ao mesmo tempo em que me criticam e tentam me enquadrar no funcionamento institucional propriamente dito. Por medo, eles não me apoiam como poderiam, e eu permaneço nessa etapa de negociação permanente. O pior é que talvez eles estejam de fato comigo, mas a situação é tal que o que eu vejo é uma possibilidade extremamente seduzente, sendo administrada pelo gosto ou pelo medo de uns críticos de arte. 

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